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Denúncia ao Ministério Público: arranque de árvores na Companhia Aurifícia enquanto a Câmara do Porto mantém silêncio

Denúncia ao Ministério Público: arranque de árvores na Companhia Aurifícia enquanto a Câmara do Porto mantém silêncio

Em 30 de março de 2026, dezassete cidadãos enviaram uma carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal do Porto a alertar para as ilegalidades do projeto de reconversão da antiga Companhia Aurifícia — 122 fogos e 252 lugares de estacionamento a ocupar quase por completo um dos últimos grandes logradouros verdes do centro do Porto. Mais de três meses depois, a autarquia nunca respondeu, nunca facultou um único documento do procedimento — e, a 3 de julho de 2026, começou o arranque de árvores no interior do quarteirão classificado.

Perante isto, um grupo de cidadãos e as associações Campo Aberto – Associação de Defesa do Ambiente e Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza apresentaram, a 5 de julho de 2026, uma denúncia formal junto do Departamento Central de Contencioso do Estado e Interesses Coletivos e Difusos (DCCEICD) da Procuradoria-Geral da República, pedindo a intervenção urgente do Ministério Público e o decretamento de uma providência cautelar que suspenda imediatamente os trabalhos.

Ler a denúncia completa (PDF)

Um historial de silêncio administrativo

A cronologia documentada na denúncia é elucidativa:

Até hoje, a Câmara Municipal do Porto não respondeu à exposição, não emitiu qualquer esclarecimento nem facultou um único documento — em violação do prazo de 10 dias úteis previsto na Lei de Acesso aos Documentos Administrativos (LADA), do dever de decisão do Código do Procedimento Administrativo, do princípio da administração aberta e do direito de participação dos interessados em procedimentos urbanísticos, consagrado na Constituição e no Regime Jurídico da Urbanização e Edificação (RJUE).

Simulação do projeto de reconversão da Companhia Aurifícia Simulação do empreendimento tal como comercializado (fonte: residential.jll.pt/empreendimento/companhia-aurificia).

As ilegalidades apontadas

A denúncia identifica várias violações substantivas:

Diagrama axonométrico dos volumes propostos Diagrama dos volumes edificados propostos no interior do quarteirão classificado.

Um padrão, não um caso isolado

A denúncia enquadra a Aurifícia num padrão mais amplo de destruição patrimonial e ambiental no Porto: o relatório do ICOMOS Portugal de janeiro de 2021, que incluiu o Centro Histórico do Porto na sua lista mundial de monumentos em perigo; a Quinta do Pinheiro, onde a promessa de “espaços verdes maioritários” do PDM de 2006 deu lugar a 117 fogos e ao abate de dezenas de árvores de grande porte; a demolição ilegal do interior da antiga Confeitaria Serrana, em junho de 2026, restando de pé apenas a fachada; e o projeto hoteleiro em curso nos jardins históricos do Seminário Maior, junto à Sé.

O que se pede ao Ministério Público

A denúncia solicita que o Ministério Público requeira, com caráter de urgência, a suspensão imediata dos trabalhos de arranque de árvores e da eficácia de quaisquer atos de licenciamento que os suportem; intime a Câmara Municipal a facultar a totalidade do processo administrativo; averigúe a legalidade do procedimento à luz do PDM, da Portaria n.º 714/2012 e da Lei n.º 59/2021 de gestão do arvoredo urbano; e informe os denunciantes das diligências adotadas.

Cada árvore abatida e cada metro quadrado de solo permeável destruído no interior do quarteirão são, como sublinha a denúncia, insuscetíveis de reconstituição. Por isso se pede uma decisão urgente, antes que a obra física esvazie de utilidade qualquer futura tutela da legalidade.


Pelos denunciantes

Campo Aberto – Associação de Defesa do Ambiente · Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza

Alda Sousa · Ana Paula Gago · Celina Raposo · Helena Alice Fevereiro Ferreira · Jorge Vilhena Mesquita · José Alberto Rio Fernandes · José Carlos Costa Marques · Luis Nuno Ferreira Pacheco Quental · Paulo Ferrero · Pedro Pardinhas